Refúgio - Uma escultura habitável

(em curso, Braga, 2020)

Premio Arte Pública e Sustentabilidade, uma iniciativa promovida pelo dst group e pela @zet.gallery com o apoio do IB-S - Instituto de Ciência e Inovação para a Bio-Sustentabilidade da Universidade do Minho.




REFÚGIO é um espaço escultórico acessível, um abrigo na cidade que convida a imaginar modalidades alternativas do habitar e estar no mundo, abertas e osmóticas para com o ambiente natural. REFÚGIO cruza as fronteiras da escultura e da arquitetura, oferecendo ao público um lugar de encontro com a arte como forma de consciência relacional, que incentive a refletir sobre a inter-relação entre todas as espécies viventes e a re-imaginar o posicionamento dos seres humanos no mundo. REFÚGIO é um espaço propício ao recolhimento e à meditação, que reinterpreta a forma clássica do claustro com jardim interior, modelo recorrente na arquitetura sacra europeia com exemplos notáveis em Braga, nomeadamente os claustros da Sé e, em particular, do Mosteiro de São Martinho de Tibães.
Todavia, REFÚGIO é uma escultura habitável não só pelos seres humanos. A sua inteira estrutura está concebida para ser também colonizada de forma imprevisível e sem intervenção humana por espécie da flora e da fauna endémica local. REFÚGIO é, portanto, um abrigo para espécies diferentes e um espaço de encontro entre espécies. A estrutura proporciona uma troca com o ambiente externo, permitindo à luz natural, ao ar e a humidade filtrar parcialmente no espaço interior, oferecendo ao mesmo tempo um abrigo da chuva e do sol. Múltiplos elementos, no interior e no exterior da obra, permitem a nidificação de pássaros. Outros, nas paredes e no teto, serão enchidas de terra fértil. Para os elementos vegetais de REFÚGIO, serão escolhidas espécies espontâneas endémicas da cidade de Braga. Uma pesquisa preliminar levada a cabo em maio de 2020, permitiu a identificação de um conjunto heterogéneo de plantas que proliferam em prédios abandonados e nos interstícios das paredes dos edifícios e da calçada. Estas espécies, entre outras, irão com o tempo colonizar a obra, de forma imprevisível e aleatória.
No interior da escultura, do jardim interior às mais altas estruturas do teto, será ainda realizada uma estrutura em fios vermelhos – de acordo com uma prática já estabelecida nos meus trabalhos recentes: um casulo simbólico que acolhe e protege o visitante, e que será progressivamente colonizado por várias espécies de insetos, nomeadamente aracnoides, e por espécies vegetais trepadeiras.
REFÚGIO cria, em suma, um ambiente propício ao desenvolvimento de uma ‘terceira paisagem’ na superfície e no interior da obra, na expressão do paisagista Gilles Clément. REFÚGIO será, portanto, depois da sua instalação, entregue a processos naturais de colonização por espécies da flora e da fauna local, sem necessidades de cuidados contínuos, tornando-se, para os seres humanos, espaço privilegiado para a observação, o encontro, e a contemplação dos mesmos.
De acordo com a proposta do edital do Premio de Arte Pública e Sustentabilidade, REFÚGIO foi concebido em diálogo com o contexto de instalação (a cidade de Braga e o seu património arquitetónico) e com os materiais disponíveis (a obra será inteiramente construída com recursos inutilizados da Bysteel, do grupo DST). A forma final da obra aqui apresentada, inicialmente imprevisível, surge, portanto, deste confronto, numa lógica de upcyclinge sustentabilidade que adapta a ideia construtiva aos recursos disponíveis.